Inacreditável, mas o ano novo vem
chegando e com ele as expectativas, as famosas esperanças e os projetos. Estes
nem tão longos, nem tão grandiosos, apenas virar a noite com as pessoas que
estiveram com você durante todo o ano. Ou abrir aquela garrafa da bebida
preferida e olhar o céu, cheio de desenhos feitos pelos fogos de artifícios. Impressionante
como a conta vem e de repente, ali, no corpo uma manchinha rosada, no braço,
perto do ombro. No primeiro momento você atribui a um inseto qualquer, a fissura
incomoda, como um arranhar para lembrar do que viveu no ano que está prestes a
partir e ainda continua latente. E quando menos se espera braços, abdômen,
pernas, elas vão espalhando, deixando o rastro da raiva, da irritação, dos
arrependimentos ainda pendentes do ano velho. E quanto mais aparecem, crescente
é a imaginação fértil criada na mente insana. Que a essa altura vem dominando
com doses grandes de ficção e drama. O que te restou foi a noite escura da solidão,
com as feridas sendo abertas e nessa noite, justo nessa noite não irão
cicatrizar. Você viu, todas as pessoas já estão ocupadas preparando a sua ceia,
as roupas brancas e correndo para o mar. Incluindo aquelas, em que a presença
havia sido cogitada ao seu lado (dizia a mente). As manchinhas rosadas continuaram a surgir,
quando o relógio anunciou meia noite e os fogos riscaram o céu, em alto som dizendo
que o novo ano havia chegado, a mente esperta criou outra ilusão, ainda não
será dessa vez, não desfalecerá, não em feridas abertas. Os olhos fecharam, feito
fim de espetáculo, os fogos silenciaram, os desenhos no céu foram apagados, restando
as manchinhas rosadas, agora em maior número.
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