Desde 2004 que estou escolhendo pelo Programa de
Estudos Pós-Graduados em Literatura e Crítica Literária da PUC-SP. Depois de uma
longa jornada pela Universidade de São Paulo e uma breve pela UNESP, o meu
caminho foi estreitado pela PUC, mesmo não conseguindo terminar o curso em 2004
por uma série de dificuldades, acredito que tudo tenha o seu caminho certo, ou
melhor, sua hora certa. E há exatos dez anos, estou de volta, 2014 foi o ano em
que o Senac, meu local de trabalho há 17 anos, aprovou minha bolsa de estudos. O que
facilitou muito a minha escolha, ou melhor, o que eu já havia escolhido há
muito tempo.
Em minhas memórias sempre guardo as experiências
vividas na escola. Fiz o antigo primário em uma escola da prefeitura, com
professores excelentes, uma época em que ainda se realizava concursos de
leitura. Sempre fui a aluna que participava de tudo, do coral, das danças, dos
movimentos sociais e dos prêmios de leitura e redação. E por falar em redação,
grande companheira durante a minha adolescência, escrevia inúmeros diários e
lia, lia muito. Os livros são nossos companheiros em todas as horas, em todas
as idades, nos livra de uma certa solidão. Ainda assim, tendo toda essa vivência
no mundo da expressividade, o colégio
fui fazer o curso técnico em secretariado, ainda a questão da boa redação, do
cuidado pelos documentos, comunicação visual, escrita e verbal, mais do que
necessárias nesse tipo de profissão. Ainda cheguei a trabalhar em uma
multinacional por dois anos, comecei a graduação em Economia, mas a cada dia me
sentia extremamente triste. E em um desses dias meu pai disse: - não seria
melhor você largar essa faculdade e voltar a sorrir? Daquele dia em diante,
decidi que jamais trabalharia ou estudaria algo que não me desse prazer, e
assim foi, larguei a faculdade e a multinacional. Buscando uma faculdade,
encontrei os meus tempos de infância e vi que a comunicação e as artes estavam
presentes desde sempre.
Confesso que fiquei na dúvida entre jornalismo e artes, mas me apaixonei pelo
prédio da FAAP-SP, algo meio greco-romano. E como disse Caetano Veloso: “as força
que as coisas parecem ter, quando elas precisam acontecer”. Acabei ficando na
FAAP, embora eu conhecesse a Cidade de São Paulo, o suficiente para perceber
que ela é feita de diversas outras cidades. Eu morando em Interlagos, estudando
no Pacaembu, tendo um sítio em Engenheiro Marsilac e depois da multinacional no
primeiro semestre da faculdade, fui indicada para dar aula de Educação Artística
em uma escola estadual, ás margens da represa Billings, também extremo sul da
cidade.
Mas todo esse percurso em plenos 19 anos, me ajudou
muito, principalmente nessa profissão que desenvolvo há mais de 20 anos, dar
aulas formais ou não-formais, mas estar sempre rodeada de gente, de várias
idades, e com tamanha diversidade de ideias, costumes, gêneros, embora eu ainda
esteja falando da cidade de São Paulo. Em 1993 ainda na FAAP, conheci a
professora Sueli Peccerini, ela pesquisava a arte de contar histórias para
crianças em fase terminal com câncer. E nessa mesma época eu dava aula na
escola pública, e a professora Regina Machado – USP, também já pesquisava a
tradição oral e dava palestras, e como existe uma força invisível que conspira,
ela foi palestrar e contar histórias na escola que eu trabalhava. Sueli – FAAP,
sabendo desse evento, pediu para que eu fosse, e recontasse uma história que a
Regina tivesse apresentado. Foi quando Regina me apresentou Fátima, a
fiandeira, foi tão bonito, porque de um certo
modo ela contou como o meu tio-avô Sebastião contava, e a minha avó D. Augusta
narrava lá no alto da Serra em Engenheiro Marsilac. Mais tarde, fui entender que
estávamos falando a mesma língua: a tradição oral. E a partir daquele momento,
contei essa história na FAAP, e em todas as minhas aulas e conto até hoje,
porque ela significa muito para mim. Porque ela faz parte de mim, as histórias
estão presentes em toda a minha família, seja materna ou paterna. A paterna por
ser neta de imigrantes portugueses e italianos, essa herança do drama, da força
da palavra, do gestual. Só poderia me dar elementos para descobrir a
artista-professora que sou hoje, e que vai se reinventando a cada dia, a cada
curso, em cada turma.
Conto histórias e leio histórias porque me alimento
delas, assim como as artes visuais, todas interligadas para minha sobrevivência.
E qual boa surpresa encontrar no programa tantas possibilidades, e o melhor,
ter professores tão significativos e inesquecíveis para a vida pessoal e
profissional. Escolher o caminho das artes não é uma tarefa fácil, a grande
maioria não aceita, se aceita já define como lazer e não como algo que
importante para a vida, seja profissional ou pessoal. E durante todas as aulas,
fui revendo aquela menina do concurso de leitura, das artes, do coral, das
danças...
Acredito que um curso de mestrado, depois de tantos
outros cursos e de tantos anos de trabalho tem essa função, dialogar algo que nos
inspire, que nos faça refletir ao ponto de nos movimentar, sair do estado letárgico
muitas vezes proposto pelo próprio ambiente de trabalho, pelo descrédito da
profissão, da área do conhecimento. O que me moveu ao programa foi a vontade de
continuar acreditando que a leitura pode ser a sua melhor companhia, em
qualquer situação, em qualquer momento, em qualquer idade. Que nada acontece
por acaso, tudo tem o seu tempo, e no meu tempo tive aula com os melhores
professores, encontrei a melhor orientadora que eu poderia ter, recuperei
minhas memórias e as minhas melhores companheiras a arte e a literatura.