terça-feira, 19 de junho de 2018

Ponto de ônibus

Ela estava tão enveredada na conversa, que passou do ponto. Desceu, retornou. A noite chegava mansa depois do trabalho, ficou ali, naquele ponto perto da Consolação, na praça do ciclista. De repente ao lado dela, uma conversa animada. Falavam de música. Ele um senhor, aparentemente mais de 65 anos, barba por fazer, branquinha, assim como os fios de cabelos. Estava com vários casacos, uma touca meio desajeitada, ao seu lado um carrinho, aqueles de feira, uma bolsa a tira colo vermelha. Ele estava em pé ouvindo a música do celular, que o rapaz lhe propunha a ouvir. O rapaz, um menino, aparentemente com os seus 20 anos, sentado, uma mochila nas costas, devia ter saído da faculdade. Era amigo daquele homem, insistia em perguntar se ele gostava daquela música, e o amigo respondia: gosto das mais alegres, falavam do Ray Charles. O moço na conversa dos bons amigos, perguntou se ele estava precisando de alguma coisa, remédios, comida, roupas... Ele respondeu: se tiver um som, preciso de música, gosto de música. Lá onde eu fico levam tudo, aliás, falta tudo, remédio, roupa, outro dia o meu amigo mendigo morreu, morreu! Foi embora! O rapaz insistia e de repente, sacou da mochila o seu caderno e uma caneta, arrancou a folha e disse: - vou deixar o endereço da minha casa e quando o senhor precisar, vai até lá! Se o senhor precisar de remédios, roupas, comida... O senhor foi completando: - se eu precisar do som, guarda lá prá mim. É mais fácil para o senhor me achar, do que eu encontrar o senhor. E o senhor respondendo alegre, na avenida paulista fria, disse: é melhor mesmo, eu ter o seu endereço, é mais fácil para eu te achar, porque você sabe, eu ando por aí, não tenho parada, vivo livre no mundo... A conversa estava tão boa, o ônibus chegou, era o ônibus do menino, mas ele resolveu ficar... Ela embarcou, olhando a cena pela janela, com as vistas turvas.

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