quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Os Poderes Infernais


O meu amor faísca na medula, 
pois que na superfície ele anoitece. 
Abre na escuridão sua quermesse. 
É todo fome, e eis que repele a gula. 

Sua escama de fel nunca se anula 
e seu rangido nada tem de prece. 
Uma aranha invisível é que o tece. 
O meu amor, paralisado, pula. 

Pulula, ulula. Salve, lobo triste! 
Quando eu secar, ele estará vivendo, 
já não vive de mim, nele é que existe 

o que sou, o que sobro, esmigalhado. 
O meu amor é tudo que, morrendo, 
não morre todo, e fica no ar, parado.



 CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE 
A vida passada a limpo, 1959 

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