domingo, 2 de agosto de 2015

MULHERES MALDITAS

Como um rebanho absorto e na areia deitadas,
Elas volvem o olhar para o espelho das águas;
Os pés em mudo afago e as mãos entrelaçadas,
Bebem o fel do calafrio e o mel das mágoas.

Umas, o coração abrindo em confidências,
Nos bosques onde se ouve um córrego em segredo,
Vão soletrando o amor em cândidas cadências
E o pólen raspam aos rebentos do arvoredo;

Outras, tais como irmãs, andam lentas e cavas
Por entre as rochas apinhadas de ilusões,
Onde viu Santo Antônio aflorar como lavas
Os rubros seios nus de suas tentações;

Outras há que, ao calor líquida resina,
No côncavo sem voz de um velho antro pagão
Pedem por ti em meio à febre que alucina,
Ó Baco, ao pé de quem dorme toda a aflição!

(As Flores do Mal - Charles Baudelaire)

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A PERGUNTA (Conto Indiano)

A PERGUNTA (Conto Indiano) Do livro: O Violino Cigano e outros contos de mulheres sábias Recontados pela PROFA. Regina Machado Editora Cia....